Palace Hotel - Caxambu

segunda-feira, 27 de março de 2017

Histórias Antigas, Velhas Histórias - Maria de Lourdes Lemos

Histórias Antigas, Velhas Histórias

Caxambu, como outras tantas cidades, tem histórias que merecem ser lembradas. Uma delas, é a polêmica sobre o vocábulo “Caxambu” que apresenta mais de uma versão e por isso gera discussão. Sou a favor da sua origem africana por se basear na História e nas pesquisas de época. Mas talvez a mais grave de todas as histórias caxambuenses seja imputar a Estácio da Silva a fundação da cidade.  Sobre esse fato desenvolvi um trabalho exposto em meu livro “Caxambu: de Água Santa a Patrimônio Estadual”,RJ,2007, pp.22/32.   
 Com o passar do tempo, a estância, em sua trajetória, vem pesquisando várias  perguntas curiosas a seu respeito. Dentre elas, a que questiona qual seria o hotel mais antigo da cidade? Para respondê-la é preciso conhecer bem os fatos e os protagonistas do início da formação da vila.

Cartão Postal de Caxambu Sem data. Vale notar que a Avenida Camilo Soares ainda não existia.
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        Entre os antigos cronistas que registraram a história das águas medicinais caxambuenses encontra-se o Cel.Fulgêncio de Castro, com seu livro de 1873 intitulado “Águas Medicinais de Caxambu”. Nele, há  referências aos hotéis da época, com destaque para o Hotel Nogueira de Sá de propriedade de José Divino Nogueira de Sá.  
         Esse foi o segundo hotel edificado na cidade e pertenceu a José Luis da Silva Prado; chamava-se Hotel Prado. José Luis vendeu-o a José Divino Nogueira de Sá. Após o ano de 1874, José Divino vendeu-o a seu gerente, João Carlos Vieira Ferraz, que trocou seu nome para “Hotel de Caxambu”.
         Como “Hotel de Caxambu” ele aparece no livro  de Félix Ferreira, de 1877, intitulado “Guia das Águas Minerais de Caxambu”, com  uma propaganda de página inteira sobre seus serviços.  Consta também no livro de J.Tinoco, repórter do Jornal do Commércio/RJ , em seu livro “Guia de Viagem às Águas Minerais de Caxambu”, 1881.
         Às vezes, na imprensa, o nome do hotel era grafado sem a preposição DE (como “Hotel Caxambu”) mas em seguida trazia a referência que seu proprietário era João Carlos Vieira Ferraz.
         O jornal “O Baependiano”, de julho de 1883, registrou  que o empresário João Carlos  Ferraz mudara o nome de seu hotel para “Hotel João Carlos”. Em 1884, Maximino  Serzedello escreveu o “Guia de Viagem para as Águas Minerais de Caxambu, Caldas, Lambari, Contendas e Cambuquira” . No Capítulo “Roteiro para Caxambu” ele indica o “Hotel João Carlos” como o melhor do local.
 Quando, em 1890, o Conselheiro Mayrink foi para Caxambu associou-se a  João Carlos  Ferraz e  comprou-lhe o hotel  mudando seu nome para “Hotel da Empresa”. Retornando para o Rio, em 1894,  ele se desfez daquele estabelecimento hoteleiro que, no correr dos anos seguintes,  foi sendo comprado por outros proprietários e recebendo novos nomes, entre eles o de “Hotel Universal” e de “Parc Hotel”. Esse último existiu até o final da década de 1930, quando foi demolido e nada mais foi  construído naquele  terreno até os dias de hoje, quando  o local está sendo ocupado  pelo Mercado Carrossel.
         O jornal “O Baependiano”, de final de agosto de 1884, noticiara  a inauguração do “Hotel Caxambu”, pertencente a Evaristo Nogueira de Sá. Ele é o atual Hotel Caxambu, existente até hoje no mesmo local de sua fundação. Em agosto próximo completará 133 anos de existência.
         Em 2011 fui consultada sobre a antiguidade dos hotéis da estância. Aos interessados no assunto, adianto que o Hotel Caxambu é o mais antigo da cidade e seus proprietários estavam cogitando comemorar seus 130 anos de existência naquele ano.
         Em meu entender, tal celebração deveria se dar somente em 2014.  
         Pelos fatos expostos, vê-se que não há razão para confundir ou  duvidar da existência dos dois hotéis: o “Hotel de Caxambu”, que teve suas raízes no Hotel Prado, antes de 1870, mudou de nome para “Hotel João Carlos”, em 1883. No ano seguinte, 1884, o “Hotel Caxambu” foi fundado.  Eles não co-existiram.                                                      
         Quando em 1962 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) editou a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, meu pai, Floriano de Lemos, fez críticas à obra, imputando-lhe vários erros históricos na parte concernente à história de Caxambu.
         A origem de tais informações constava nas  publicações do 15º Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha, de 1953,  e na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Vol.XXIII, Minas Gerais, A-C, pp.430 e 431, em 1958.
         Em sua Crônica Científica, publicada na ocasião no jornal carioca Correio da Manhã, Lemos  comentou  sobre a confusão de dados   na publicação do IBGE.
         Floriano de Lemos foi médico, jornalista, membro emérito da Academia Nacional de Medicina, com um nome bem conceituado nos meios literário e científico. Declarava em suas oratórias que era um carioca com coração caxambuense. A cidade homenageou-o dando seu nome ao Gêiser no Parque das Águas.
         A publicação de sua  Crônica, naquela ocasião, suscitou resposta do Secretário Geral do Conselho Nacional de Estatística – IBGE,  agradecendo-lhe a valiosa contribuição que dera para aquele trabalho, com a possibilidade de uma correção no caso de reedição daquela obra.
         Foi-lhe feito, então, um convite para que expusesse numa Conferência as correções que deveriam ser feitas no caso de reedição.Ele assim o fez.  Tenho parte do rascunho escrito de seu  próprio punho para  essa Palestra, bem como algumas  anotações sobre quesitos que mereceriam correções. Elas abordavam a questão sobre Estácio da Silva , a análise de algumas fontes, as histórias  sobre  antigos hotéis que mudavam de nome causando confusão aos menos atualizados com os acontecimentos daquela urbe.
         A abertura da Conferência transcorreu com o seguinte teor.

Preciso, antes de mais nada,  justificar a minha presença neste lugar. Conversando, há dias com o General Rondon a respeito da Enciclopédia dos Municípios, classificando-a de obra monumental, não pude deixar de lamentar que a parte referente a Caxambu contivesse uns tantos senões, que poderiam ser corrigidos oportunamente.
O General sugeriu-me publicar as minhas notas na Crônica Científica que mantenho, vai para mais de meio século no Correio da Manhã; ou então uma Conferência ou Sessão no Conselho Nacional de Geografia e Estatística para constar de publicação no Boletim Informativo do Instituto. Estou eu indeciso sobre a providência a tomar, pois tive a honra de receber um ofício do Secretário-Geral do Conselho Nacional de Estatística, aguardando “minha valiosa contribuição para a nossa documentação municipal, a ser aproveitada no caso de reedição da Enciclopédia”.  
         Toda referência que estou tecendo é porque sou pesquisadora dos  trabalhos paterno: manuscritos, livros, seu acervo em geral. Passei a conhecer a história caxambuense de uma maneira bem diferente daquela contada em livros e artigos baseados em folhetins sobre a cidade.
Na Introdução do meu livro, “Fonte Floriano de Lemos”, 2001, comentei que o título não era uma alusão a uma fonte física, mas à Fonte do Saber, onde bebo os ensinamentos do meu pai, sorvendo aos goles os vários aspectos da história da cidade.
A minha  Fonte comporta, atualmente,  vários jorros. Cada um deles  apresentando  suas peculiaridades: o primeiro jorro, é o “Fontes e Encantos de Caxambu”, com sabor clínico do uso das águas. O segundo, é o “Parque das Águas”, que sabe a um turismo interno por suas alamedas. O terceiro, o do “Caxambu: de Água Santa a Patrimônio Estadual”, tem gosto de raízes históricas. O quarto, o das “Crônicas Publicadas”, com sabor de contos urbanos. O quinto, o das “Crônicas Caxambuenses,” com bastante gás novo. O sexto, o da “Cidade de São Thomé das Letras”, fortemente excêntrico chegado a quartzo. Quem sabe se com o tempo a Fonte Floriano de Lemos tornar-se-á o “Chafariz Floriano de Lemos”, com mais jorros em sua arquitetura?
 Assim como meu pai é uma referência para mim por sua experiência de vida, seus conhecimentos históricos, vivências passadas, da mesma maneira os prédios antigos e os velhos casarões, quando conservados, são uma Fonte do Saber para quem souber beber todas as informações que eles encerram: neles falam a história local, a sua época, os personagens que  passaram por suas salas e quartos, as alegrias e tristezas  que viveram, a arquitetura, o mobiliário, tudo contando  as vivências  do lugar.
Caxambu tem três pilares históricos: o Casarão da Família Guedes, da época do Arraial, o Hotel Caxambu, quando Freguesia, e o Palace Hotel, como Vila. O conteúdo cultural que eles encerram vale por uma biblioteca que  não corre o risco de ser deletada, mandada para a nuvem ou atacada por vírus. Se conservados, continuarão testemunhando e contando a vida da cidade, com histórias antigas, velhas histórias.

        

Rio, março de 2017