Palace Hotel - Caxambu

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O VELHO E O NOVO SEMPRE RENOVAM A VIDA - By José Celestino Teixeira.

O VELHO E O NOVO SEMPRE RENOVAM A VIDA.
By José Celestino Teixeira.



Nos Anos 80 acompanhei uma Equipe de Reportagem da Manchete Rural em Caxambu, para uma série de Reportagens que entravam ao Ar todos os domingos pela extinta TV Manchete.
Rede Manchete (também conhecida como TV Manchete ou apenas Manchete) foi uma rede de televisão brasileira fundada na cidade do Rio de Janeiro em 5 de junho de 1983 pelo jornalista e empresário ucraniano naturalizado brasileiro Adolpho Bloch. A emissora permaneceu no ar até 10 de maio de 1999.[1] Fazia parte da Bloch Editores, criadora da revista Manchete, posteriormente, o nome da revista foi dado à emissora de televisão.
Sugeri alguns Módulos ao repórter chefe da Equipe, que aceitou todas as Sugestões: Mangalarga Marchador, Ecologia e Turismo (Trutas), Café e Gado Leiteiro.
Os programas em sequência foram ao Ar em Rede Nacional aos domingos.
Dos Módulos sugeridos um deles foi filmado na Fazenda do meu amigo Toninho Pelucio, lá em Baependi Terra de Nhá Chica.
Naquele tempo o Toninho estava bem disposto animado com a sua criação de Gado Leiteiro.
Três Ordenhas Diárias, inclusive uma à noite.
O gado jovem encoleirado e bem alimentado no cocho com ração balanceada.
Um primor a criação.
Ele recebeu a mim e a equipe da Manchete com extrema fidalguia que sempre lhe foi peculiar.
Apresentei-lhe o João Carlos, o repórter chefe da equipe, a quem ele conhecia o tio, que morou em Caxambu muitos anos: o Cabeleireiro Sr. Dias.
Muito amigo do Paulo Barão, contra parente do Toninho.
Logo houve uma empatia entre os dois.
Mandou preparar um lauto banquete, com whisky de primeira linha escocesa( “Royal Salute” de 21 Anos em Garrafa de fina Porcelana) acompanhado de todos os queijos fabricados pelos Dinamarqueses, com destaque para o gorgonzola - uma variedade de queijo azul fabricado com o leite de vaca, originário da localidade de Gorgonzola, nos arredores de Milão, na Itália e também, da França com nome originário de “Roquefort ou roquefor”, ainda do Laticínio Skandia (do velho Godofredo)
Passamos uma tarde e um bom pedaço da noite na fazenda conversando,aprendendo e filmando o Programa.
Só Alegria!
Sempre ele me chamava e fazia questão de explicar tudo, tudinho que se passava na fazenda. Um ar descontraído que o cinegrafista aproveitava com muita experiência.
Ia filmando tudo com muita naturalidade.
O repórter João fazia perguntas e indagações que o Toninho respondia com conhecimento, calma e muita habilidade fazendo questão de ser bem entendido.
Daquela agradável visita e o Programa que particularmente foi um sucesso quando foi ao Ar guardei uma lição inesquecível.
Interrompidas as filmagens para edição momentânea, o Toninho Pelucio me pegou pelo braço e fomos dar uma volta pela propriedade.
Ele de chapeuzinho de vime na cabeça, vara de “pau de veado” nas mãos sobre a qual, vez em quando se apoiava para prosear melhor me revelando segredos da criação de gado.
Quando paramos no curral, onde estava o Reprodutor da Fazenda, um boi holandês imenso, forte e bravo eu assustei.
O animal mugia e batia com uma das patas no chão cavando um enorme buraco e, o Toninho me revelou: Ele, não gosta de mim, aliás boi holandês nenhum gosta do dono.
Talvez porque o dono lhe regre as montas ou talvez por pura birra. Afinal quem é o dono do pedaço?
Uma disputa saudável de autoridade.
Historias existem mil na roça de boi bravo que espremeu o dono contra uma parede ou régua do curral.
Casos até de morte.


Então, em minha santa ignorância das coisas do campo, mas movido pela vivacidade de repórter amador perguntei: Como fazer para acalmá-lo.
Momento em que o Toninho abaixou-se e falou baixinho no meu ouvido: Vou por um bezerro novo com ele e você vai ver como o bicho acalma.
Chamou o capataz e introduziram no pasto um bezerro holandês lindo.
Achei que o boi fosse pisoteá-lo, matá-lo.
Qual não foi minha surpresa!
Ao perceber a presença do bezerro menino em seus domínios o boi bravo achegou-se ao bezerro que brincava e lambeu-lhe a cara.
Agora batia com as patas com delicadeza, como se estivesse alegre.
Repetia as lambidas e às vezes o bezerro corria brincava e voltava pra ser lambido.
Era o velho e o novo trocando energia salutar.
Todo boi adulto, um dia já foi bezerro e a lembrança da infância talvez lhe trouxesse contentamento.
Mas boi não pensa!
Se não pensa tem intuição que vale mais que qualquer pensamento.
Dessa lição nunca me esqueci na vida.
Mas tarde, muito tempo depois, quando vejo pelas ruas um avô ou avó todo calmo e feliz se babando diante dos netos me garro a lembrar daquela lição que aprendi com o amigo Toninho Pelucio.
Fora outras, como a de tomar whisky em dose dupla e no mínimo seis pedra de gelo e, completar com água mineral.
Naquele tempo usávamos aquela garrafinha pequena de vidro que a Superáguas lançou e exportou para a Alemanha e os Estado Unidos e que que também era servida nos vôos internacionais com a marca/fantasia “Dijon”.
Bons tempos aqueles!
Outro dia assisti a um Programa na Globo News em que mostrava a experiência no Japão da convivência de idosos e crianças.
Lá os Asilos (bem diferente dos nossos) e casas de estar dos Idosos são sempre vizinhos de creches e escolas infantis.
Em determinados momentos há uma convivência mutua, uma interação entre os velhos e os novos.
Pura troca de energias de forma salutar.
Crianças aprendem velhos ensinam e se alegram.
Não foi em vão o poema de João Cabral, em Morte Vida Severina, quando indagava:
“Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dentro da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido
(Melo Neto, 1995, p. 195)
– Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
(Melo Neto, 1995, p. 201-2)
De sua formosura
deixai-me que diga:
Belo como a coisa nova
na prateleira [até então] vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
Assim a vida se renova a cada dia, quando o novo contamina o velho de vida nova e esperança, de lembrança de ter sido um dia também criança.
Nova como é a vida na chegada, velha quando na despedida.
Contudo alegre, na vida e na Morte.
Não só Severina é a Vida que se renova na Esperança de ser Revivida.
Deixo um forte abraço ao amigo Toninho Pelucio que vivo está e muito, ainda, há de durar.


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